Nas margens do grande Zambeze, os povos Tonga contam que um ser divino habita as profundezas do rio — guardião das águas e das almas dos seus filhos.
Ilustração: Do Nyaminyami
Há histórias que não são apenas histórias. São memórias vivas, transmitidas de avó para neto, de pescador para pescador, resistindo ao tempo, às cheias e até às barragens. A lenda do Nyaminyami é uma dessas histórias — e para os povos Tonga que habitam as margens do Rio Zambeze, é muito mais do que uma lenda.
O Nyaminyami é descrito como um ser imenso, com corpo de serpente e cabeça de peixe, que habita as profundezas do Zambeze. Não é um monstro — é um guardião. Um ser espiritual que protege as águas, regula as cheias e assegura que o rio continue a dar vida às comunidades que dele dependem.
"O Nyaminyami está no rio como o sangue está no nosso corpo. Sem ele, o Zambeze perde a sua alma."
— Anciã Tonga, província de Tete
A parte mais poderosa da lenda fala de um amor separado por mãos humanas. Conta-se que o Nyaminyami e a sua esposa viviam juntos no rio, inseparáveis como as duas margens do Zambeze. Mas quando, nos anos 1950, foi construída a Barragem de Kariba — uma das maiores do mundo — o casal foi separado para sempre.
O Nyaminyami ficou de um lado da barragem. A sua esposa, do outro. Dizem os Tonga que foi por isso que a construção foi tão difícil, tão cheia de acidentes e mortes: o espírito do rio revoltou-se contra aqueles que lhe quebraram o coração.
Nos anos que se seguiram à construção da barragem, a região experienciou vários terramotos incomuns. Para os engenheiros, era apenas geologia — o peso da água na rocha. Para os Tonga, era o Nyaminyami a lutar para se reunir com a sua amada, a sacudir a terra para tentar quebrar o que o homem construiu.
A lenda não é apenas poesia. É também um aviso. Os Tonga foram deslocados das suas terras para dar lugar ao lago artificial criado pela barragem. Perderam as suas hortas, os seus cemitérios, os seus lugares sagrados. O Nyaminyami tornou-se símbolo de uma injustiça real — e esculpido em madeira e pedra, passou a ser vendido como amuleto de protecção por toda a região.
"Quando usas um Nyaminyami ao pescoço, estás a pedir protecção ao rio. Estás a dizer que não te esqueceste de onde vieste."
— Artesão Tonga, Songo
Hoje, a figura do Nyaminyami é omnipresente nas comunidades ribeirinhas entre Moçambique e Zimbabwe. Aparece em colares, estatuetas, pinturas e tatuagens. Os pescadores ainda lhe pedem permissão antes de entrar no rio. As crianças crescem ouvindo a sua história.
Numa época em que muitas tradições se perdem, a lenda do Nyaminyami sobrevive — talvez porque fala de algo universal: o amor, a perda, a resistência, e o direito de um povo ao seu próprio rio.
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